TOTEX na prática: Risco regulatório ou Evolução inevitável?
O BRRemFOCO nasceu com a proposta de compartilhar minha experiência em Regulação, Gestão de Ativos e, especialmente, na Base de Remuneração Regulatória (BRR). Com o tempo, esse escopo se expandiu naturalmente. Desbravamos juntos entrevistas com alguns profissionais no setor, percorremos os caminhos da BRR em outras áreas da empresa e até exploramos conceitos contábeis sob a ótica da regulação do setor elétrico. Explorar esses temas, que sempre fizeram parte da minha rotina profissional, mas nem sempre foram alvo de estudo aprofundado, foi um processo gratificante e revelador.
Nesse contexto acredito que é uma boa oportunidade pensarmos
“Se a BRR molda o setor há décadas, será que estamos tão acostumados a
ela que deixamos de questionar seus limites?”
O modelo atual de revisão tarifária favorece investimentos
de capital (CAPEX) como principal vetor de remuneração. Mas, diante das
transformações que desafiam o setor, será que essa lógica ainda é suficiente?
O modelo regulatório brasileiro, em linha com o que
conversamos aqui, tem em seu alicerce a Base de Remuneração Regulatória (BRR),
onde o investimento (CAPEX) é o principal fato gerador de receita das
distribuidoras. A nova obra é realizada, o capital empregado, o bem entra no
ativo da concessionária e começa a gerar retorno via depreciação (QRR) e
remuneração do capital (WACC), enquanto o OPEX, fundamental para a operação, é
tratado como custo inevitável a ser contido. Essa lógica fomenta um sinal
regulatório: soluções baseadas em investimento são preferidas, pois aumentam o
valor regulatório da empresa e garantem retorno previsível ao longo do tempo.
Já as despesas operacionais, por não gerarem retorno direto, tendem a ser
minimizadas, mesmo quando poderiam representar soluções mais eficientes.
Esse formato acaba gerando um cenário de desequilíbrio com viés pró-investimento, um dos efeitos colaterais mais marcantes da estrutura atual. A segregação entre CAPEX e OPEX pode levar, muitas vezes, a decisões enviesadas, como por exemplo optar por ampliar a rede em vez de realizar manutenção preventiva. Em um cenário cada vez mais complexo, com o avanço eminente da transição energética, da pressão por eficiência e novos modelos de consumo, esse modelo tradicional pode começar a mostrar sinais de esgotamento.
Uma alternativa a ser considerada e que, inclusive, já foi
ventilada na Aneel é o TOTEX que é a sigla para Total Expenditure, ou
seja, o custo total da operação, ele é resultado da consolidação do CAPEX e do OPEX.
Em alternativa ao modelo atual, regulação por Totex parte de um conceito
simples mas poderoso “Um Real é Um Real”, independente da natureza do gasto e o
que importa é a eficiência global da concessionária e da qualidade entregue ao
consumidor. Ao inverter a logica atual, o modelo Totex fomenta a busca por soluções
inovadoras e eficientes, independente da alocação do recurso.
Este contexto abre espaço para alternativas antes negligenciadas
por muitos agentes, opções relacionadas à soluções digitais, serviços
terceirizados, foco na manutenção estratégica e até medidas que evitem a
necessidade de expansão de redes. É importante destacar que, mesmo em um
cenário de totex o conceito de FOCS (Fixed OPEX-CAPEX Share), que
estabelece uma proporção fixa entre OPEX e CAPEX para fins de cálculo
tarifário, permitindo que o regulador acompanhe o desempenho da distribuidora
com base em metas de eficiência e não na natureza do gasto. É uma mudança de
mentalidade e de sinal regulatório.
Uma pergunta pertinente neste contexto é o porquê isso ainda
não foi feito? E a resposta indica que já foi, com casos emblemáticos que
fornecem lições importantes para uma potencial implementação. O primeiro caso
que podemos analisar é o modelo RIIO, no Reino Unido. RIIO em tradução significa
Receita = Incentivos + Inovação + Resultados, e este é o espírito principal
deste modelo.
A lógica principal é a inversão do entendimento, premiando
não quem mais investe, mas quem entrega melhores resultados e estes resultados
são relacionados principalmente à qualidade no atendimento, confiabilidade e
até a descarbonização. Agregado à isso, na revisão do modelo foi inserida a
premissa de bonificar quem apresenta e implementa boas estimativas de custo,
cumprindo assim o planejado.
Um outro caso que merece menção é a Australia, que quebrou o
“Ciclo vicioso do CAPEX” que já indicava sinais nítidos de sobreinvestimentos
em redes de distribuição. Nesse sentido a Aneel de lá, o Australian Energy
Regulator (AER), passou a assumir uma metodologia buscando a neutralidade na
relação OPEX e CAPEX, evitando assim distorções nos planos de investimentos. Embora
não tenha implantado um modelo TOTEX puro como o caso do Reino Unido, a
Austrália evoluiu na direção de equalizar os incentivos e permitir que soluções
mais flexíveis e eficientes sejam consideradas nos planos regulatórios.
Assim, ao agrupar a remuneração com base na consolidação do
CAPEX e do OPEX, o TOTEX tem uma política de incentivo focado na eficiência, eliminando
assim o viés forte em investimentos massivos. O foco é transferido da execução
de novas obras e passa para a busca objetiva da melhor solução, independentemente
da rubrica a ser atrelada ao dispêndio.
Em mesma medida de benefício e, considerando o status atual
de evolução do setor elétrico brasileiro, o estímulo à inovação é latente em
modelos de TOTEX, uma vez que muitas tecnologias a serem implementadas não
constituem Ativos sob a ótica descrita nos submódulos do Proret ou ainda no Manual
de Controle Patrimonial do Setor Elétrico. Com foco na eficiência, a inovação
torna-se uma solução possível sem o cuidado constante do OPEX zero.
Mas seria leviano da minha parte apresentar apenas estes
benefícios que são, em alguma medida, óbvios. É necessário levar em consideração
que a transição para um modelo de TOTEX representa inicialmente uma complexidade
regulatória imensa. Consolidar CAPEX e OPEX hoje exige uma mudança em sistemas,
métodos de reports, classificação de despesas, estruturação de processos de fiscalização
e, em uma medida extrema, uma reinterpretação do papel da Aneel como órgão regulador.
Outro ponto crítico é o risco de metas mal calibradas, o que
pode resultar tanto em subinvestimentos e deterioração da estrutura atual, quanto
em ganhos excessivos para a concessionária e aumento no comprometimento
financeiro do consumidor. Soma-se a isso a resistência cultural dentro
das empresas, onde ainda predomina a lógica de que “investir é o que dá
retorno”. Por fim, há o desafio relacionado à manutenção da confiabilidade do
setor, principalmente em um setor regulado, onde previsibilidade e estabilidade
são pilares centrais para atrair capital.
O fato é que o Setor Elétrico Brasileiro não é para amadores
e não pode se dar ao luxo de se acomodar. Tenho certeza de que o TOTEX não é o
ideal, em mesma medida acredito na necessidade tácita de melhorias e
otimizações na lógica de CAPEX.
Cabe a nós conduzir, não uma transição, mas uma evolução
constante do setor de forma a acompanhar um este setor vivo e mutante. Não
devemos copiar modelos prontos, mas desbravar novos horizontes em busca de
equalizar a melhor prestação de serviço possível e a remuneração justa dos
investidores.

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