Estamos Preparando Gente Boa ou Apenas Sobreviventes?
Meu início no setor elétrico partiu de uma candidatura despretensiosa. Era uma vaga para Analista de Regulação Pleno, numa empresa excelente — mas eu não tinha a experiência necessária.
Mesmo assim, participei do processo, fiz uma entrevista
bacana com aquele que viria a ser meu gestor e grande amigo, e acabei sendo
selecionado. Arrisco dizer que essa decisão mudou minha carreira e a minha
vida.
Como em todo novo desafio, os primeiros dias foram
complicados.
Meus sete anos de experiência em logística não me ajudavam em nada
diante daquele mar de siglas e termos técnicos. BRR, BAR, AIS, VNR, COM, CA,
TUSD, RAP, CVA…
Eles não só não faziam sentido — me soavam como outro idioma.
Aqui, talvez fosse o momento de contar uma história de
superação, com noites em claro lendo manuais e resoluções. Mas não seria
verdade. O que me salvou de verdade foram as pessoas.
Colegas de trabalho, consultores de empresas avaliadoras,
fiscais e parceiros da ANEEL que, com generosidade, compartilharam
conhecimento a cada interação. E assim, dia após dia, fui construindo meu
conhecimento regulatório. Aprendo até hoje. A cada ciclo, descubro algo
novo, vejo outra perspectiva, ou ganho uma abordagem diferente para um velho
problema.
Mas, como gestor, me pego refletindo sobre algo mais
profundo: será que um novo profissional que ingressa hoje no setor terá a mesma
sorte que eu tive? Será que ainda dependerá exclusivamente da boa vontade de
colegas experientes? Ou já compreendemos, de forma madura, que ensinar faz
parte da nossa responsabilidade — e não se trata de um favor?
Esse questionamento ganha ainda mais relevância quando
consideramos as particularidades do setor elétrico brasileiro. Trata-se de um
ambiente regulatório denso, altamente técnico, guiado por uma legislação
complexa e específica — fruto de uma busca legítima por equidade tarifária, mas
que, não raro, é tensionada por pressões políticas e conjunturais. Esse cenário
impõe um desafio adicional à formação de novos profissionais, exigindo não
apenas disposição individual, mas uma estrutura institucional capaz de acolher,
orientar e formar.
Além disso, os ciclos tarifários longos, o que impede a
interação mais rotineira aos processos tarifários e, para concluir todo este
emaranhado profissional temos uma área de regulação sem graduações específicas
e com formações complementares, como MBAs, de difícil acesso.
Assim posso afirmar: Na regulação o começo é muito difícil.
A curva de aprendizado é longa, e o jargão é brutal. Sem um onboarding intencional, não formamos profissionais — formamos sobreviventes.
Ao longo dos anos, fui moldando uma visão prática de como acelerar e humanizar o desenvolvimento de quem entra nas áreas técnicas da regulação, mas as práticas não são um manual de operações, mas o que acredito que funciona para mim e para as equipes que lidero. Acho importante que cada gestor revisite suas experiencias e busque como tornar o processo mais assertivo.
Contexto antes da norma: A conversa deve sempre
começar com a lógica do negócio. Porque esta área, gerencia, superintendência,
empresa foi criada? O que se espera desta “unidade de negócio”?
Integração com outras áreas: Levar o novo profissional
para conversar com as áreas parceiras, seja a regulação, contabilidade,
tributos, planejamento ou áreas técnicas. Essa conversa busca clarificar a
visão sistêmica e processual. Onde estamos inseridos?
Agora vamos para a Norma: Quais legislações que regem
o negócio? O que é conhecimento fundamental prévio? Depois de entender o
contexto, podemos explorar as regras.
Shadowing e pequenos projetos: A criação de um
“padrinho”, um colega que será acompanhado em sua rotina e irá orientar o novo
colaborador nas atividades diárias é uma oportunidade dupla. O novo colaborador
aprende e o profissional mais experiente exercita suas capacidades de
liderança.
Feedback recorrente: Aplico em minhas equipes ciclos
trimestrais de feedback, mas quando falamos de um processo de novo colaborador,
isso é muito tempo! O acompanhamento do gestor deve ser constante com encontros
individuais semanalmente. É a hora de se mostrar presente e comprometido com a
capacitação do novo membro do time.
Nos times que lidero, o onboarding não é um evento — é uma cultura.
Todo mundo sabe que ensinar é parte da função, não um favor. E isso muda tudo. A construção de materiais internos, nossos próprios glossários e envolvemos a pessoa nova em discussões reais desde cedo são constantes.
E se a gente quer modernizar a regulação do setor elétrico
ou qualquer outra empresa, precisamos começar por quem chega hoje, com os olhos
cheios de dúvidas, como eram os meus anos atras.
Se você é gestor, pergunte-se: qual legado de conhecimento
está deixando para os próximos?

Bruno, achei o seu texto muito oportuno e bastante profundo ele vai além da simples integração de novos colaboradores e atinge o cerne da sustentabilidade da competência técnica em organizações complexas. Gostaria de contribuir com duas reflexões que podem complementar seu ponto de vista:
ResponderExcluir1.Aprendizado contínuo como cultura
2.Gerar autonomia do profissional novo
Parabéns pela provocação!